sexta-feira, 26 de junho de 2015

Notas de rodapé

    

    Muitas vezes guardamos o título do livro por achar que ele sintetiza ou explica a obra. Outras vezes pensamos que o primeiro capítulo, como forma de fornecer um contexto e introduzir o assunto, é o suficiente para sabermos o que é tratado. Em alguns casos a sinopse ou a contracapa parecem dar conta do recado. Tem ainda as oportunidades onde lemos o final, como que buscando na conclusão ou última página entender o que aconteceu ou a moral da história. Há também aquele dia que abrimos bem no meio para buscar o âmago ou ápice do livro.

     Mas hoje não quero falar dos livros. Quero falar das notas de roda pé da vida. Não são os títulos luminosos, os grandes finais, a moral da história ou algo assim, mas é um detalhe que por fazer toda a diferença. Muitas vezes muda tudo. Desde o gênero literário, o grau de confiabilidade do escrito até o nosso futuro ou o meu passado.

    Trato aqui como notas de rodapé aqueles momentos micromágicos que vivenciamos e que dificilmente conseguimos esquecer. Não sei por quê. Não sei nem se sou só eu que tenho isso. Posso sofrer de uma doença rara e não sei. Micromomentismoseternos agudo.

     Não são aniversários, nascimentos, mortes ou datas especiais. Pode ser empurrar alguém no balanço em uma tarde de 1997; um abraço na volta das férias de inverno de 2014; uma fala durante um show em setembro de 2009. Uma pulseira, um desenho, um olhar. Sem um motivo que consiga explicar, mexem, ficam, servem. (são verdadeiras lições)

     Talvez seja isso o tal do aprendizado. A hora que cai a ficha, que conecta, que encaixa, que faz sentido. Provável que nenhuma das outras peças saiba o que pensei, senti e as consequências disso até os dias atuais. Essa semana que escrevo posso citar ao menos dois momentos.

     Experiencia em trocar ideias com pessoas de diferentes áreas no palácio do ministério público, viagem até Caxias com especialistas em temas que me interessam muito, debate com estudantes de diferentes opiniões... mas o aprendizado maior foi na observação de uma atitude. Durante o debate, ele silenciosamente pede licença e sai. (ficou bravo? Foi fumar um cigarro? Banheiro?) fiquei no palco nem mais prestando atenção nos colegas debatedores, mas intrigado.

     Em todo auditório, poucas pessoas não se entusiasmaram com o que foi discutido. Encantados em defender a proposta, todos fomos agressivos ao defender nossos argumentos que são facilmente sustentado ao responder as críticas (ou melhor, reclamações. Por não conterem argumentos embasados ou proporem uma alternativa). Em resumo: Um casal foi metralhado por pensar daquela forma, no mínimo incoerente e preconceituosa. (não sei se por ter de ouvir esse discurso quase diariamente, não fiquei chocado com aquela forma de pensar).

     Ele depois de ouvir em silêncio, saiu. Era o que estava mais embasado em discordar daquela aberração, era o que mais tinha argumentos. Ele podia ser ovacionado por todos os demais do auditório. Ele estava lá na rua fria de Caxias explicando melhor para o casal. Talvez o casal não mude de opinião. Talvez nem pense mais no assunto. Talvez todo o esforço, preparação e discussão da palestra fosse nada, a moral estava ali na cerração gelada do estacionamento. Entre ele e o casal.

     O show foi ensaiado. Autorizado. Fez-se set-list. Todos equipamentos em três viagens. Perde trabalho. Mata aula. Cancela jantar. Briga com ela. Negocia com ele. Por favor, porra. Luz, som, gente. Experiencias diversas outra vez. Erros, falta de organização, desrespeito, perdão, respeito, orgulho, humildade. E onde menos vem é que mais se espera? O aprendizado maior não veio em isso tudo.

    Ela, no meio de meus transtornos. No meio de tudo. Aquela fala que era minha. Aquilo que eu digo. Ela reproduziu. Eu identifiquei. Mudou tudo. E quem só ganha perde a honra de chorar. Mas e o que é perder? ganhar? Procurarei meu filósofo do empate. Mas na comemoração esquecemos. A vitória pode cegar e a derrota paralisar. Entre choro e grito, um abraço. O abraço. Meu prêmio. Ali eu tinha derrotado a simples vitória. Empatei. Essas três pessoas nem sequer vão imaginar o que aprendi com elas essa semana. Eu nunca vou esquecer. A gente aprende é nas notas de rodapé. 

* Na foto, a banda tocando um rock and roll no sábado de manhã (no Marista Graças) da semana citada. (algo que gerou algumas notas de rodapé) O negócio é misturar!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Tolerância



Lembro que há alguns anos eu pensei que talvez o conceito que a sociedade mais precisava era a tolerância. Nessa época eu fazia pós-graduação e pesquisava sobre música e cultura brasileira. Trabalhava sobretudo com jovens adultos, onde compartilhava esse olhar para a arte e identidade através dos mais variados debates dentro das ciências humanas.  Porém, me questionava se o termo seria o mais apropriado, uma vez que a crítica, revolução, utopia, m pareciam muito mais uteis para nós todos.

Atualmente, trabalhando com estudantes mais jovens e pesquisando sobre educação não formal e sistema carcerário, tenho tentado compartilhar que a revolução só se alcança se passarmos por alguns estágios. A crítica é essencial mas dependendo de como é feita, se transforma em mera reclamação. A utopia é o alvo, mas precisamos dar o primeiro passo. Então é aí que volta, com força total, o termo de Tolerância.

Não só no contexto pessoal, mas na sociedade em que vivemos atualmente, talvez nunca tenha se feito mais preciso a tolerância. Na questão política partidária, nas religiões, nos esportes e em especial no futebol, nos movimentos socais...

A religião, como elemento que mais levou a mortes ao longo da história, segue não conseguindo praticar a tolerância. No contexto mundial através do Estado Islâmico e no contexto nacional através da Bancada Evangélica e seus aliados, vemos que democracia, o regime da tolerância não combina com a intolerância religiosa.

A questão não é o islamismo ou o protestantismo evangélico. Pensar assim de forma generalizada já é intolerância. Mas a interpretação que se faz, radical, nos leva sempre a intolerância. O problema é que aí até as coisas que estão em busca de um bem maior podem se contaminar. As feministas e seus direitos totais de ficarem indignadas com a sociedade que parece uma propaganda de cerveja, de tão machista. Os homossexuais e seus direitos totais de não aceitarem as medidas preconceituosas de determinadas religiões.

Mas, mais uma vez o profeta estava com a razão e a emoção. Se gentileza gera gentileza, intolerância gera intolerância. Assistindo a uma partida de futebol, fazendo um show de rock, participando de um debate acadêmico ou de uma gincana escolar, isso fica visível.
Eu quero paz com liberdade, amor sem ódio e igualdade na diferença. Isso é utopia, mas para atingirmos precisamos dar o primeiro passo. A Tolerância.

Tolerância é ouvir mais que falar, pensar mais que agir, se colocar no lugar do outro. É voltar atrás, é dar braço a torcer, perdoar, engolir. Respeitar. É diálogo, é troca, é empate. Não é o mais bonito, mas é a base. Não é minha utopia. Mas é o primeiro passo.

Aprender, praticar, compartilhar. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Reformas, construções, Cunhas, Blatters, Patricias e Évretons


Sentei para escrever sobre a redução da maioridade penal, proposta de derrubar a lei do desarmamento, críticas ao “mundo do futebol”... Temas que cada vez mais me convenço, é difícil trabalhar em uma sociedade que quanto menos sabe mais fala com intolerância da verdade absoluta.

Essas questões de violência estão fortemente ligadas ao conceito de intolerância que é alimentado pela velocidade das redes sociais. O bom é que o povo tem voz. O ruim é que não tem argumentos. Acabam sendo apenas caixa de som que amplificam uma mesma voz.

Mas eis que as besteiras que o presidente da câmara Eduardo Cunha tenta colocar aceleradamente para votação, os problemas de violência, a alienação útil da (falta de) educação, autonomia de jovens (amplificadores), e esses mesmos temas sendo escancarados no mundo do futebol.... no meio de tudo isso escuto uma canção! Ela me faz esquecer tudo e me leva para a rambla de Montevidéu.

Em uma noite drogada,  no centro de Montevidéu, estava eu em uma festa numa casa abandonada. Fui com uns caras que conheci horas antes num albergue. Teria um show,  os músicos eram esses meus mais novos amigos. Um argentino, dois uruguaios, compomos algo de tarde,  antes de pegarmos um ônibus pro show.

Lá cerveja de litro,  papos a kilo e gurias a metro.  Era um banquete e eu ali com fome de novidades.  Teve apresentação de violino, filme preto e branco e o resto foi tudo colorido. 
No outro dia acordo pro café (da tarde) com a notícia de que teria show de brasileiros.  (Era a galera do olodum). Meu colega baiano queria ver o que era ser baiano. Eu queria saber ser brasileiro. Com uma loira de SC fomos pra parada tentar descobrir qual o ônibus iria pro lugar do show que não sabíamos onde seria.

Encontrei uma argentina, meio hippie, gostei. Descobri que era musicista e tocava na orquestra da cidade do Che Guevara.  Conversamos até o fim do show.  Na volta, por ser brasileiro, carona na van do olodum. 

Segunda feira tem aula. Discutir política, educação, brincar de corrida de caranguejo no corredor e comer no chinês que é mais barato. Pra de noite sobrar grana pra pizza com ceva, onde o garçom discute sociedade com mais argumentos que o professor e a garçonete encanta mesmo em silêncio. 

Era no bar que recebia sanduíche da brasileira aposentada que queria  conhecer o mundo e alimentar melhor o estudante sonhador. Entre um gole e outro, mais um trabalho feito.  Artigos lidos e dia finito. 

Bah que saudade da minha rotina Uruguaia do mestrado!
Mas acorda Ralph, aqui estamos preocupados com o futebol, então vamos tuitar algo do meu time contra os adversários e enquanto a grana rola entre eles, a intolerância e a violência entre nós  eu grito gol! Algum Blatter sempre estará lá a olhar por nós! ( rir de nós). Pro professor digo que não li porque não lembrei, mas discuti política com um pai. Temos que tirar a Dilma e 16 anos pode votar, tem que ser preso então!!! e temos que ter nossa arma em casa, afinal ta tudo muito violento. (aqui ainda posso ser irônico). Afinal a culpa é da Dilma, do professor e do pessoal da periferia.  

“.Acabei de receber uma promoção, vou virar mestre de obras. Terei uma obra só minha em Canoas. Dedico ela a ti pois teus pensamentos mudaram os meus”. Recebi ontem antes de dormir essa mensagem de um ex estudante do EJA. Por mais saudade de Montevidéu, talvez  aqui a educação possa construir um novo país.. Se tivermos mais pedreiros, assim!!!!! Afinal mudar de lugar é fácil, mas mudar o lugar... Melhor é abrir uma Patricia, responder a hippie e seguir a construção.

Não sei dizer eu amo vocês, então torço que as atitudes sejam entendidas. (as vezes precisamos uns "nãos")





domingo, 17 de maio de 2015

Slow...



Que vivemos em tempos cada vez mais corridos podemos saber via analises de pensadores pós-modernos ou em uma conversa via whats app com aquele vizinho que nunca vemos. Preferencialmente na conversa (digitada, ou até mesmo através de emoji) pois é mais prático e rápido que a leitura e a reflexão de um livro.

A questão é que não cabe aqui (e não temos tempo(?)) de versar sobre as possíveis causas que convirjam para essa era acelerada. Apenas, ciente dela, buscar refletir através de alguns movimentos, exemplos e incentivos a uma mudança de percepção.

O já consolidado e divulgado movimento do slow food que desde o fim dos anos 1980 vem trazendo uma reflexão em contrapartida não só da alimentação fast food (espelho) mas da própria sociedade fast food.

Em seu manifesto, sua filosofia e missão aparecem aspectos como o direito ao prazer da alimentação, utilização de produtos artesanais de qualidade especial, produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente quanto as pessoas responsáveis pela produção, os produtores. Bom, limpo e justo! Tão simples e tão difícil nesse nosso tempo.  Uma alimentação mais saudável, responsável e prazerosa. (quando as pessoas dar-se-ão  conta de como esses conceitos andam juntos?)

Através do respeito ao meio, a biodiversidade, as pessoas, a nós mesmos, essa filosofia propõe através de um dos nossos hábitos mais primitivos, uma mudança na forma de perceber as coisas.
Baseado nisso, nossa era é caracterizada pela informação. Velocidade e consequentemente, excesso de informações. (quase todas elas inúteis para nós após alguns minutos). Pouco se transforma em conhecimento e quase nada vira sabedoria.

Pensando em tudo isso, trago para pensarmos também o slow journalism. Movimento pensado também em alternativa (para não falarmos em oposição) ao jornalismo que vem sendo muito praticado atualmente. Para muito além de manchetes que usam uma imagem e pouco texto, baseado em achismos e valorizado pela antecedência ao ser publicado e não pela qualidade... o slow journalism prega uma reflexão mais aprofundada sobre os temas. Mais importante do que noticiar primeiro é noticiar bem. Mostrar os diferentes lados, embasado, fontes, acompanhar um processo... enfim, novamente respeito, prazer e reflexão.

Por fim, como podemos já estar pensando, parece possível usarmos o “slow” para muitas áreas de nossa vida. Por uma vida mais “slow”. Seja nas opções de lazer e divertimento, no transporte urbano, na nossa forma de trabalhar, estudar...

Vencer o conteúdo e acabar o livro a tempo para conseguir contemplar tudo na prova! Provas a tempo de passar no vestibular, entrar na faculdade ainda adolescente para graduar-se e começar a trabalhar o quanto antes. Trabalharmos mais e ao encontrarmos nosso vizinho (no whats) dizer que não lemos o livro do pensador pós moderno pois não temos tempo. Só trabalhamos. “o tempo ta corrido”. É, nisso tudo, por medo de ouvir p pai dizendo que “não trabalha para comprar livros de conteúdo para não serem utilizados” ou estudantes que se preocupam e cobram o conteúdo pois caso contrário a prova vai ficara incompleta... esquecemos do principal! (pensar, dialogar, sentir.) Justo, saudável, responsável, prazeroso, profundidade, reflexão... isso é slow.

Site sobre o movimento slow food no Brasil - www.slowfoodbrasil.com.br 

Campanha contra o fast jornalismo. - http://www.hypeness.com.br/?s=pobreza+e+midia

Na foto "a casa do Bob" comida e vida mais slow (EUA)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Pensar em desistir?


Pensei em escrever sobre os absurdos ocorridos na “pátria educadora”, mais especificamente os que aconteceram entre o Estado e os professores, mediados pela polícia. Como diriam os titãs... ou como diria um estudante meu “marionetes”... que nas mãos de governantes despreparados e amedrontados, tremem. Também despreparados, quebram.

Políticos? Policiais? Professores? Em quem colocaremos a culpa dessa vez? Tragam um espelho. Enquanto a população não perceber que as categorias criticadas a cada semana são amostras de nós mesmos. Um título, um uniforme ou um cargo não deixa alguém furtado do seu caráter humano. Essas atitudes de impeachment, redução da maioridade penal, são apenas reflexos da forma que viemos nos comportando.

Pensei em escrever sobre a proposta da redução da maioridade penal. Fazer com que jovens que respondem por seus atos a partir do ECA e de medidas socioeducativas passem a responder pelo código penal e prisão. Para quem conhece os documentos/legislação e a prática (fase e sistema carcerário) não parece difícil se posicionar na discussão. Estudiosos e especialistas nos temas são praticamente unanimes, ,mas formam a minoria. Do outro lado, alimentada pelos números da violência, ódio e insegurança e mídia sensacionalista,  a maioria.

Pensei principalmente em escrever sobre a experiência que tive semana passada e saí transformado.  Passar uma semana no sistema carcerário do regime fechado conversando com recuperandos, funcionários e voluntários. Talvez se mais pessoas pudessem experimentar o contato não precisaria estar pensando em escrever sobre a violência com os professores ou da redução da maioridade penal. Porém sobre isso estou escrevendo para o mestrado. Material inédito, então deixemos para a publicação.

Por hora escrevo sobre aqueles momentos que pensamos em desistir. Questão que me foi levantada por uma estudante semana passada. “tu pensas em desistir?” Depois de  refletir e questionar o conceito de desistência, sobretudo lincado ao de mudanças, e de dizer que penso em desistir todos os dias... pensei, conversamos... cheguei a ideia de que quem não pensa em desistir todos os dias é porque já desistiu e não percebeu. Então por tudo que não fazemos agora, por todas as mudanças e trocas, questionamentos e “inconformações”, desisti de escrever sobre a minha experiência na APAC, sobre redução da maioridade, sobre o conflito no PR. Apenas compartilho um momento de desistência da semana expresso através de um e-mail para minha orientadora:

Patrícia,

A academia cobra a tal imparcialidade que na minha forma de ver não existe. Ao escolher falar de um tema, estou já sendo imparcial. Ao escolher a fonte da letra que usarei no texto estarei sendo imparcial. Ao olhar para o caso, através do meu olhar que se da a partir da minha cultura, educação, moral, ideologia, escolhendo um paradigma, uma metodologia... tudo isso estarei sendo imparcial.
Se a emoção aparece a academia pode questionar e dizer que não é cientifico e blá, blá,b

Eu trabalho com educação. A pesquisa para mim é como se fosse um alimento que me fortalece para o meu objetivo principal (que está longe de ser ficar horas formatando trabalhos ou discutindo com egos de doutores que não saem das suas torres de mármore) é compartilhar meu olhar sobre as coisas. Buscar conectar as diferentes realidades que percebo... tentar interferir de alguma forma na sociedade em que faço parte. E isso me parece impossível de separar quando começo a escrever no que acredito.
Eu me emocionei, eu chorei, eu falei palavrões, nada científico.
Não sei se vou conseguir/querer me submeter a essas besteiras que cada vez mais me incomodam do mundo acadêmico. (e também escolar!)

Estou bastante contente pois fui convidado para uma reunião no ministério público do tribunal de justiça do RS para falar sobre minha visita e experiência na APAC para a futura instauração de uma em Canoas. Acabo de receber um e-mail me convidando para realizar mais uma palestra para estudantes da psicologia e do dirteito de uma universidade de na serra gaúcha. Sobre a APAC e transformação social. Tenho conseguido despertar amigos e familiares para assunto que não os interessava ou tocava.

Talvez isso tudo que está acontecendo é o que eu mais queria. Compartilhar, trocar, experimentar.
Enfim, confuso quanto a seguir escrevendo para o mestrado.
Também não tenho mais saco de ter que cortar uma linha de discussão quanto um sinal infernal toca. Parar a fala de um estudante porque um imbecil que não queria estar ali não consegue respeitar os demais.

 Não nasci pra fazer chamada. Faço três vezes porque esqueço, rasuro e perco. Pra que? Também não quero falar para os pais o como a vida capitalista individualista e frustrada deles não pode ser descontada em um paradoxo de abandono e superproteção dos filhos. Não gostaria de ter que contrariar uma noção formada de que não é preciso respeitar colegas, de que os professores não são especialistas o suficiente para terem a total autonomia na educação escolar, de que a nota é o mais importante e pode ser alcançada na última prova do ano... Não sou pai de ninguém. Não tenho maturidade para ser, menos ainda pra falar como se deve ser.

Não quero ouvir alguém me dizer que tenho que dar limites para seus filhos... Horas fazendo provas? Pra que? Pra escrever opções que estão erradas e uma que está correta? Perco mais tempo escrevendo mentiras do que construindo conhecimento! Algo está errado nisso tudo! Porra, ninguém vê?
Burocracia, notas, grana....  Gastam o tempo e a energia que é pra ser de vida.

Procurando onde esteja o que quero! Além de dentro de mim.  (Sem nunca esquecer o que uma estudante me disse tempos atrás “mudar de lugar é fácil. Difícil é mudar O lugar”)




Na foto uma placa significativa (desde ser esculpida na madeira, junto com um novo homem, até o fato de estar na porta que abre para novas possibilidades)que recebi de presente dos recuperandos da APAC e deixo na porta de meu quarto para não esquecer que das muitas coisas que me ensinaram sobre educação, me fizeram pensar que desistir diariamente é nunca desistir.




domingo, 19 de abril de 2015

Quem somos nós? (no cinema)

                                            

Nas últimas duas semanas assisti a dois filmes que estão martelando ainda em minha cabeça e se conectando em vários pontos com os demais temas que também estão estacionados nela, nos últimos tempos.

Penso não ser uma exclusividade minha mas algo que acompanhe a humanidade nesses milhões de anos que viemos buscando entender o meio em que vivemos, as nossas relações e nós mesmos.

O sal da terra é um documentário franco-ítalo-brasileiro de 2014, dirigido pelo alemão Wim Wenders e pelo brasileiro Juliano Salgado. Foi indicado ao Oscar de melhor documentário na edição do Oscar 2015. O longa é um olhar para a vida e a obra (ou a obra que é a vida) do talentosíssimo fotografo brasileiro Sebastião Salgado.

Há tempos um filme não mexia tanto comigo. De estudante do interior de Minas Gerais, passando pelo cientista econômico de esquerda engajado de São Paulo, até o economista secretário barbudo que trabalhava com grandes empresas em Londres. Isso tudo é Salgado. Isso tudo é ele antes de se descobrir fotografo.

Já casado e com filhos ele resolve abandonar sua carreira promissora e com barbas e cabelos ainda maiores, perdendo no tamanho apenas para sua coragem, inicia a vida de fotografo para olhar as pessoas e ver mais de perto.

Ele, assim como o budista que ouvi essa semana fizeram as melhores definições de economia que já vi/ouvi. (outro momento falo sobre isso). Deixou de ser um pós-graduado da economia para retratar em preto e branco todos aqueles que estavam a margem da sociedade.

Olhando para os excluídos sociais da América latina e da África ele inicia sua nova jornada. Tudo isso se mistura no filme. Um pouco biográfico, um pouco didático, um pouco histórico, um pouco de tudo. Mais muito de cada detalhe que torna o filme uma obra prima. Dirigido pelo mestre Wenders e pelo filho do próprio fotografo o filme narra a vida e as fotos, contando com depoimentos do Sebastião explicando o contexto de suas fotos.

O filme tem partes fortes. Sebastião diz que depois de acompanhar massacres, guerras, mortes e horrores que só os seres-humanos são capazes de criar, ele adoeceu. A alma dele ficou doente. Ele pirou por um tempo. Deixou de acreditar no homem. E aí inicia sua mais recente fase que busca retratar a natureza, o meio e os animais. Mas quando a gente pensa que ele “perdeu” é aí que vem a grande surpresa do filme, que muitas vezes chega a parecer ficção de tão interessante e surpreendente.

Ele se cura, sua alma passa a estar livre da melhor forma possível. Ele se conhece, se reconhece e passa a agir ainda mais como um agente de transformação. Filme brilhante que busca olhar para nós, homens, bichos, seres que somos um pouco homens, um pouco bichos mas que através do meio em que vivemos conseguimos ultrapassar tudo. Resumo: Palmas no final da sessão. (merecidas). Planos no final da sessão (ainda acontecendo) Mudanças no final da sessão (já estão começando).

Força maior foi o segundo filme. Ele é como a vida. Alguns saíram do cinema reclamando que não tinha nexo. (e a vida tem?), alguns elogiando e dizendo que é divino (e a vida não é?). Sem dúvida o filme tem partes tristes, chatas, cansativas, mas tem momentos de gargalhadas, reflexão, aventura, enfim, é como a vida. O filme busca retratar a vida. A vida de uma família. De homens, de mulheres, de crianças. Todos um pouco humanos, um pouco bichos.

Uma família sueca passa as férias nos Alpes para esquiar. Eles ouvem um estrondo, que poderia ser um alerta de avalanche. Mas o pai não acredita na possibilidade de perigo. Enquanto comem, são surpreendidos pela avalanche. O pai reage com covardia, o que fará com que ele seja perseguido pelos seus erros até o fim de sua vida.

Respeitando o tempo, enaltecendo os diálogos, reverenciando a natureza gelada, o filme talvez não seja para todos. Deixa muitas questões no ar. Não possui piadas prontas. Não é rápido e não é didático. Mas é muito bom. Diferenças entre gêneros de uma maneira nada obvia. Relações pensadas de maneira diferente. Medo e coragem não da maneira convencional. Filme simples mas muito complexo.

Pensar até onde somos bichos e onde somos homens. Racionais ou instintivos. O que faz o homem ser um homem. (essa semana discuti bastante sobre essas relações. Sexo, religião, economia, guerra, palavra, fogo, agricultura, choro, sorriso, elogio e crítica. Enfim, como mostram os finais de ambos os filmes, nós só somos quando nos relacionamos. Com o nosso meio, com os outros e com a gente mesmo. Contexto e Autoconhecimento. Homem e meio. As tecnologias nos expressam, retratam, nós interpretamos. Enfim, continuamos caminhando. E tudo está absurdamente conectado.


Filmes: O Sal da Terra e Força Maior estão em cartaz nos cinemas J

Na foto o uruguaio Eduardo Galeano (1940 – 2015) que nos deixou entre tantas lições, uma sobre caminharmos rumo à utopia.  

sábado, 11 de abril de 2015

Um Mês?



Sempre amei perguntas! Por algum tempo, submetido a ditadura da escola e de minha timidez adolescente, guardei-as para mim. Já na fase (adulta?) liberei todas elas! Em um bate papo com amigos, janta com a família ou na sala de aula. (atuando como estudante ou professor), espalho e disparo todas que puder.

Acredito, como o Gessinger, que a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza. Concordo com o comercial da Unissinos que diz que as perguntas movem o mundo. Não sou muito das respostas. Sou todo das perguntas, questionamentos...

Eis que essa semana me foi feita uma. De forma despretensiosa, no inicio da manhã, minha coordenadora pedagógica me olha e dispara: “Ralph, o que tu faria se o mundo só tivesse mais um mês?”

Parei. Pensei. Colegas vieram com boas piadas. Bateu a sirene. Fui para aula. A pergunta ficou.
Uma semana me acompanhando. Sim, já tinha pensado sobre o tema antes. Já havia recebido essa pergunta. Mas era outros momentos. Outros Ralphs. Veja, é diferente “O que fazer antes de morrer”, “O que fazer se tu só tivesse mais um ano de vida”, mas a pergunta foi “O que fazer se o mundo for acabar daqui um mês”.

Para mim, ao menos, faz toda diferença. Uma coisa é eu, simplesmente eu, morrer. Outra é o mundo todo desaparecer. Isso envolve mudanças na minha reação. Primeiramente pensei em viagens. Aquela de mochilão por toda América. E aquele tempo conhecendo a Europa? Mas e o autoconhecimento nos países asiáticos? Africa? Imagina uma banda pelo Egito e conhecer culturas tribais da savana? Bah! Antes de começar a imaginar as ilhas paradisíacas só pra mim meu violão e uma prancha, pensei de novo. É só um mês.

Shows dos Stones, tocar pra muita gente sem ficar nervoso, dar aula para quem esta sedento pelo que tu quer compartilhar? Ter um filho? Ralph, é só um mês! Dar a vida por alguma causa???  Não, Ralph o mundo todo vai acabar. Então fiquei sem resposta.

De manhã: Acordei leve. Comi uma pizza gordurosa fria e fui meditar no sol. (equilíbrio é o que há). Me voltou a questão! Caiu a ficha! Faria o que fiz esse mês. Nada de muito diferente. 
Nada que mude totalmente minha rotina. Mas, ações diárias que vão mudar a forma de fazer a rotina.
Respirar mais antes de brigar. Mais atenção com aquela pessoa. Um pouco mais de empenho naquela atividade. Um cuidado maior com aquilo. Um sorriso a mais pra ela. Olhar mais contemplativo sobre tudo. Pequenas mudanças cotidianas para transformar a rotina. (saberes, amigos, arte, natureza, estudantes, sentimentos, família, pessoas...)


As viagens? Os shows? A morte por uma causa? O filho? Escrever um livro? Deixa isso tudo para o “antes de morrer”. Para esse mês vamos agora, já! (só espero não morrer esse mês).

* Na foto um dos momentos simples e especiais de todos os meses. Estar com meus amigos tocando um rock and roll. Na ocasião, essa semana na formatura do Michael (baixista).