sexta-feira, 10 de abril de 2020

Vacina contra fake news


                               


      As fake news são novas só na forma, já que o conteúdo é tão antigo quanto as primeiras civilizações. Porém o que antes eram fofocas e mentiras que circulavam devagar entre menos gente, atualmente em função da velocidade do virtual, em um click a (des) informação já se alastrou por vários países e milhões de pessoas. 

      Porém se o avanço tecnológico permite que esse tipo de problema se torne maior, ele também nos fornece ferramentas para que consigamos enfrentá-lo na mesma medida. Com o alcance facilitado a várias fontes, a pesquisa sendo possível de forma mais rápida e profunda, o que precisamos é perceber que, se antes uma mentira tinha perna curta e portanto afetava algumas pessoas por um determinado tempo, hoje as pernas se alongaram e as fake news podem prejudicar milhões e muitas vezes, para sempre. 

      Numa situação tão singular como a que estamos vivendo em função do CONVID 19 e a crise do Coronavírus, ainda não temos remédios devidamente testados ou vacinas já comprovadas, mas temos como combater as fake news. Leia com atenção. Cheque a fonte. Pesquise. Questione. E só então, se achar que é válido, passe adiante. Caso contrário, ao compartilhar informações errôneas e perigosas você está contribuindo para o problema se agravar. 

      Lembre-se que o conhecimento verdadeiro nasce da dúvida, enquanto a fake news nasce de uma pretensa certeza absoluta. Em tempos acelerados, reflexão e questionamentos ficam para depois. E a leitura da manchete já é suficiente para que se compartilhe a notícia sem ter lido-a. 

      Nessa oportunidade onde a aceleração da vida pós-moderna tão tumultuada parece ter nos dado um tempo (mesmo que forçado, devido a quarentena), aproveitemos para ler artigos de fontes respeitadas, pesquisas menos superficiais, busquemos retomar os livros e estudar para que seja possível um dialogo mais rico, profundo e tolerante. Valorizemos a Ciência e a imprensa, tão desrespeitadas ultimamente. 

Vamos juntos na luta. Fique em casa. Lave as mãos. E não compartilhe fake news. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O tempo de cada pessoa.







Somos filhos do tempo e portanto não existimos sem ele. Somos frutos do nosso próprio tempo e por ele somos moldados. Ele nos atravessa e decide nossa existência e finitude. Ao nascermos inicia nossa contagem regressiva. 

Mas para além dos significados mitológicos, científicos, físicos ou históricos do tempo, hoje minha reflexão se isola na relação de que dura cada pessoa em nossa vida. 

Algumas possuem passagem rápida, quase uma estrela cadente, que nos causa surpresa, entusiasmo mas logo viram passado. A essas recomendo fazer um pedido. (Só não vale pedir para que se demorem, pois o tempo é implacável). Tem vezes que essas pessoas em um pequeno espaço de tempo impactam tanto que podem ser apelidadas de meteoro.

Há também aquelas que duram o tempo de uma paixão. São passagens breves mas muito intensas. Deixam marcas, que por vezes viram cicatrizes. Costumam sair da mesma forma que chegam, abruptamente. 

 Tem ainda aquelas pessoas duradouras. Que chamo de o tempo de amar. Vão lentamente construindo a intimidade, o cuidado e o carinho em doses quase homeopáticas e que nos acompanham por boa parte da vida. Essas são como tatuagens que ficam gravadas na pele. Não se apaga. 

Por fim, há uma última categoria. E essa vence a barreira do tempo. Ela é o tipo mas raro. Ela é atemporal e vive dentro de nós. A chama dela não se apaga. Ela é o que chamamos de imortal. Dificilmente encontrará muitas dessas. Cuide para ter o máximo de tempo com ela. Viva e aproveite o tempo de cada pessoa. Que não seja imortal mas infinito enquanto dure. 

domingo, 22 de dezembro de 2019

Carta aberta aos que levam a mochila nas costas, o saber na cabeça e a vontade no coração




Talvez vocês não saibam. (E é responsabilidade minha fazê-los saber). Eu existo por vocês.

Da mesma forma que um autor ganha vida ao ser lido, ou um maestro só tem sentido se tiver uma orquestra, eu sem vocês seria uma canção silenciada.  
Me construo diariamente com pedaços de cada estudante. Das gírias até a maneira de enxergar as coisas, eu vou aprendendo, adaptando e me constituindo. A cada instante, tudo que descubro, aprendo ou percebo, meu pensamento é como fazer isso chegar até vocês.

Eu sofro um pouco. As vezes escondo pra não atrapalhar nossos encontros. Outras vezes não consigo e, transformo em raiva, algum palavrão ou cara fechada. Em determinados momentos não consigo e transbordo em aula mesmo. E muitas vezes a dor vai embora pela diversão de estar com vocês. Outras vezes é atenuada pela compreensão e carinho. Perdão por não conseguir sempre ser o que gostaria de ser enquanto educador.

Eu sou muito feliz. A cada amadurecimento de vocês. Os depoimentos, atitudes que espio pelos corredores, intervenções pela escola. Cada evento, engajamento, brincadeira ou debate. Quando misturamos problemas sociais e amenidades, dançamos ou produzimos belos trabalhos, conversamos, rimos e aprendemos.

Sou bastante crítico, eu sei. Às vezes vejo isso como algo positivo uma vez que faz-me arrancar o que há de melhor em cada um ou uma de vocês. Em outros momentos sinto-me mal porque não sei se consigo ser compreensivo suficiente ou reconhecedor de cada pequena vitória de vocês.

Professor passa muito mais tempo planejando do que dando aula. E planejar pra mim é pensar em cada um e cada uma. Ficar comemorando sozinho o avanço, pensando que palavra eu posso usar em aula para tocar determinada estudante ou quem devo procurar para melhor auxiliar aquele estudante.

Entendo aqueles que reclamam de mim. Mais que um direito, é quase uma obrigação quando se é estudante. (ainda mais adolescente e vivendo na situação em que muitos vivem). Torço pra que chegue o tempo em que percebam que jamais fiz algo para o mal deles.

Não entendo muito aqueles que me admiram. Mas por eles tento cada dia ser melhor. Seguidamente me perguntam por que eu estudo tanto. (uma vez que já tenho duas faculdades, estou cursando a terceira. Tenho pós-graduação, especialização, um mestrado e agora estou começando mais um). Não é por dinheiro, já que sabemos o que eu estudo não traz grana. Não traz necessariamente um reconhecimento também em nosso país. Não é visando algum emprego específico ou desafio pessoal. É por vocês. É a forma que eu encontro de buscar contribuir mais com vocês. Das aulas de mestrado, passando por separar o lixo ou evitar brigar no trânsito, eu faço pensando que tenho estudantes. E são vocês que me fazem melhor, acreditar e querer mudar esse mundo pra melhor.

Muito obrigado por mais esse ano. E desejo 2020 de sonhos, alegrias, equilíbrio, amadurecimento, utopias, lutas e principalmente vontade! Para (re)existir, amar e mudar as coisas. E claro, sentido... afinal precisamos pensar para que(m) serve nosso conhecimento! Aproveitem as férias e façam de tudo! Vivam! E façam histórias... depois quero ouvi-las!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Dom Quixote e o governo Bolsonaro contra moinhos de ventos.


  Em  pleno século XXI temos a oportunidade de nos identificarmos com uma das obras literárias mais conhecidas do mundo: Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes. O autor renascentista criou um personagem que delirante, enfrentava os inofensivos moinhos de vento como se fossem terríveis inimigos. 

   Atualmente o governo brasileiro decretou como ameaças ao país: Paulo Freire, rock, Beatles, ideologia de gênero. Em comum esses inimigos possuem a inexistência ou  a irrealidade. Enquanto isso temas como a violência policial, o desemprego, o racismo ou crescente número de feminicidio passam em silêncio. 

  Num país onde o governo terraplanista nega o racismo e ataca as ONGs, ambientalistas e defensores dos direitos humanos, o elogio a ignorância parece ocupar o espaço da razão. Precisamos de um novo renascimento. Que venham os artistas que como Cervantes, trouxeram luz, ciência e humanismo. Afinal, estamos vivendo uma nova idade das trevas.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O revolucionário em situação de rua

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Ao atravessar a rua em um bairro nobre da cidade, me deparo com um homem alto e magro, aparentando uns 30 anos. Pelas suas roupas e sacos de lixos recicláveis que carregava, concluí a partir do pré-conceito que era alguém em situação de rua.

Ele em tom de subserviência me chama de padrinho e vai logo confessando orgulhoso que não usa mais drogas. Meu refúgio agora é a arte. Para fugir da realidade eu escrevo, pinto e desenho."

Parei para ouvi-lo. Notei a surpresa em seu semblante. 
Iniciou falando timidamente mas ao passar os minutos já estávamos em um papo de amigos.

Sugeri que ele vendesse a arte que produzia. Me respondeu em tom solene 
"A arte?... A arte não se vende padrinho. Isso seria até pecado".

Ao me sentir envergonhado e admirado ao mesmo tempo, só soube observa-lo por alguns em silêncio. 
 
"Padrinho, me perdoa, mas eu queria um pouco de dinheiro" 

Falei que não tinha dinheiro. Mas me interessei em saber sobre sua arte.  
Após uns instantes de estranhamento ele se pôs a falar orgulhoso das suas produções.  

Me perguntou no que eu trabalhava. Disse que era professor. (E talvez isso explicasse a minha falta de dinheiro). 

Ele me respondeu "dinheiro é nada perto do que o senhor tem padrinho. Sabedoria". 

Rimos e ele perguntou se eu poderia ensinar algo a ele. 

Disse que eu era professor de história e que acreditava que o conhecimento não se transfere, se constrói, em conjunto. 

Me ignorando respeitosamente ele pediu pra eu explicar a revolução Francesa. 

Enquanto senhoras assustadas nos miravam  enquanto passavam com seus cachorros na coleira, jovens atravessavam a calçada nos ignorando, eu lhe falava do movimento iluminista e da sua defesa por valores como liberdade, igualdade e fraternidade. 

Expliquei um pouco o contexto da monarquia absolutista, da sociedade estamental e do poder da igreja no antigo regime. 

"Exploração dos políticos, uns com toda riqueza e outros passando fome... Tô sacando" disse ele em tom reflexivo durante a breve aula. 

Terminei falando um pouco das diferenças entre a elite burguesa girondina e os revolucionários jacobinos, que colocaram fim ao reinado e vida do rei Luís XVI, guilhotinando-o. Iniciava aí o sonho da República contemporânea (livre, igualitária, justa, fraterna....) 

Ele em tom de compreensão me diz "Eu tenho já um facão. Muito obrigado pela aula padrinho. Agora eu vou é matar os doutores pra fazer a revolução" 

Ele me estendeu a mão firmemente e saiu. 

A educação é mesmo uma arma perigosa... 



segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Pedro meio cinza e suas meias coloridas.




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Pedro era um senhor de meia idade. Meio magro. Meio alto.
Reconhecia-se como um homem médio. Ou melhor, um homem pela metade.  

Trabalhava como mais um auxiliar administrativo no serviço público.  
Morava com sua esposa e uma filha num apartamento alugado em um bairro distante do centro da cidade. 

 Fazia seu deslocamento com um carro semi-novo que estava pagando aos poucos. 
Pensava em divórcio. Mas estava esperando a mulher tomar a iniciativa de pedir a separação.

Tinha medo de morrer sozinho. Temia perder o contato com a filha, que na visão dele já lhe achava um cara meio fracassado.

Certo dia, cansado de ter uma vida pela metade, Pedro antes de dormir, em um choro seco, prometeu pra si mesmo que a partir da próxima manhã tudo seria diferente. 

Acordou e simplesmente decidiu não ir trabalhar. Depois de anos sem sequer se atrasar, Pedro troca o trabalho por uma manhã inteira na cama. 

Sentindo-se um rei, levanta quase meio dia e senta-se na varanda. Ainda de cueca e meias, resolve abrir um whisky escocês que ganhara de uma tio rico e guardava como enfeite.  

Ao sentir o último gole queimar lhe a garganta, arremessa o copo vazio que estoura na parede. 

Coloca seu terno que só usava em batizados ou casamentos e resolve sair sem rumo definido. Enquanto dirigia ao som alto, decide viajar para o litoral. 

15h e em uma bela terça feira de sol, deita-se somente de cueca sob o sol de uma praia vazia. Mergulha e nada alegremente até perceber o sol se pôr. Seca-se com o blazer e resolve colocar novamente a calça e camisa. 

De sapatos sem meias pega seu carro e volta para a cidade. No caminho, resolve jantar em um chique restaurante. Come ignorando completamente os olhares curiosos dos garçons. Ao passar pelo centro da cidade, resolve parar em uma casa de massagens. Logo de cara chama as duas mulheres mais atraentes do salão para o sofá que estava.

 Meia hora de conversa e sobe com as duas para o quarto. Deixa o estabelecimento já era quase de manhã. Ao chegar na garagem do seu prédio, chora. Chora muito. Por tanto tempo achava que o sentido da vida estava no que ele não fazia. E agora tinha certeza, a vida não fazia sentido. 

Pega o elevador pensando que tinha excedido a velocidade do carro e portanto certamente acumulados multas de sua ida a praia. Pagou as garotas de programa com o cartão que estava no nome da esposa e está saberia da traição. Tinha desaparecido e não retornado as ligações da filha que deveriam estar muito preocupada. Gastou mais do que tinha para manter a família durante o mês. 

Ao chegar no sexto andar paralisa vendo a porta abrir lentamente enquanto pensa o que fará. Seu pensamento é interrompido por uma sirene. 

Seu celular toca exatamente 7:15 e ele acorda a tempo de ver sua filha saindo para a escola com a mãe. Fica paralisado percebendo que havia tido um sonho e enquanto veste o seu uniforme monocolor pensa que descobriu o sentido da vida. 
Veste meias coloridas novas e sai sorrindo. 

sábado, 21 de setembro de 2019

O Amor atravessa na faixa



Dirigindo pela cidade tenho a impressão que estamos todos apressados para chegar aonde não queremos. Parece uma espécie de gincana onde quem perder menos é o campeão. Essa competição motorizada que inclui violência, intolerância e barbárie, nos causa a impressão que não há espaço para o trânsito dentro de uma civilidade.

Ao sair de casa com meu cronômetro regressivo ligado, armado em meu tanque popular 1.0 me deparo com um homem de meia idade atravessando a rua calmamente com seu cachorro. Por um instinto de cuidado com o animal, resolvo parar e deixá-lo atravessar com seu dono. Mas ao me ver eles param e com um olhar que emana a mais profunda doçura acenam em sinal de agradecimento.

Aquele gesto tão simples, quase imperceptível nas grandes questões cotidianas, me paralisa. Me faz querer sua amizade. E se nós marcássemos um churrasco? Ou pelo menos um convite para tomar um chopp? Poderíamos virar grandes amigos e sair para jogar bola com o cachorro. E se todos vivêssemos em paz, sorrisos e agradecimentos, em um mundo das delicadezas?

 Em poucos segundos, enquanto essa história se forma na minha cabeça ingênua, já sou jogado de volta a selva urbana por buzinas que gritam atrás de mim. Já havia se formado uma fila de dois outros automóveis impacientes. Acho que é impossível o amor no tráfego. Engato a primeira e percebo que o mundo continua parado. As placas seguem não apontando o destino.